quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Square Gardette, um paraíso em Paris

Na praça. Restaurante Nhà-quê, <252,1>no Square Gardette Foto: Fotos de Fernando Eichenberg
Na praça. Restaurante Nhà-quê, no Square Gardette. Foto: Fernando Eichenberg
O jornalista correspondente Fernando Eichenberg, de O Globo, publicou nesta segunda (19), uma excelente matéria sobre a Square Gardette, que reproduzo e recomendo a leitura, segue a peça:

PARIS — Em Paris e em muitas outras cidades você pode estar caminhando por uma grande via e, de repente, ao se aventurar por uma trilha perpendicular, se deparar com o inesperado. É o caso do bucólico Square Gardette, escondido entre a Avenue Parmentier e a Rue Saint Maur, no 11º distrito da capital francesa. A arborizada praça revela algumas surpresas em suas margens. Uma delas é o restaurante de gastronomia contemporânea vietnamita Nhà-quê (20 Rue Général Guilhem), onde em um pequeno mas acolhedor espaço o chef Eric Vo-Van propõe um menu de suas especialidades asiáticas.

Nos dias de temperaturas amenas e céu de brigadeiro, a pedida é sentar-se às mesas na calçada, diante da verdejante paisagem e ao som do canto dos pássaros. Quase ao lado, no número 28, pode-se comprar vinhos de qualidade a um bom preço na cave Le Vin de Bohème, principalmente da região da Borgonha, com a possibilidade de eventuais degustações acompanhadas de queijos e frios. Virando a rua, sempre circundando a praça, o salão de chá Murmure & Délices (17 Rue Lacharrière) apresenta em suas estantes oito dezenas de tipos de chás dos mais diferentes cantos do mundo. O local, que possui igualmente mesas na calçada para os dias estivais, também proporciona eventualmente exposições e concertos acústicos para os seus clientes, além de livros de arte e coleções de HQs. A poucos passos dali, o bar e restaurante Le Square Gardette (24 Rue Saint Ambroise, esquina com Rue Général Guilhem) é uma boa opção para um aperitivo ou uma refeição, num décor original e serviço simpático. E ainda nos arredores, há também o Naoki (5 Rue Guillaume Bertrand), apreciado como uma boa cozinha japonesa de Paris.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Rue des Thermopyles: uma aldeia em Paris

A Rue des Thermopyles fica no Quartier de Plaisance, no 14ème arrondissement de Paris, com entrada pelo número 87 da Rue Raymond Losserand e é famosa nos arredores por seu ar bucólico, como se fosse uma pequena cidade do interior, com folhagens e flores nos muros das casas.






terça-feira, 20 de agosto de 2013

Saint Germain com vista de 360°



O verão está chegando ao fim mas enquanto o outono não chega, ainda podemos aproveitar de belas vistas de terraços parisienses, como o do Bar 43 Up the Roof, no último andar do hotel Holiday Inn Paris Notre Dame, que nos oferece uma magnífica vista panorâmica de 360 graus de Paris: a Tour Eiffel, Sacré-Coeur, no alto da Butte Montmartre, a Grand Roue no Jardins des Tuilleries e, é claro, a catedral de Notre-Dame de Paris.

Holiday Inn Paris Notre Dame
4, Rue Danton
6ème arrondissement
Telefone: 01 81 69 00 60


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Paris em agosto: cidade fantasma

Mais um ano se passou e estamos novamente no meio de Agosto que, como já falei tantas vezes, muda a cara da cidade, que literalmente fecha para as férias.

Se alguém me perguntar qual a época ou o mês do ano que menos gosto em Paris, a resposta seria sem nenhuma hesitação: o mês de agosto.

Em agosto faz calor, com máximas que passam facilmente os 30ºC.

Em agosto os parisienses – quase todos – saem de férias e a cidade fica vazia, a não ser pelas enormes quantidades de turistas da própria Europa e, é claro, Ásia.

Em agosto os melhores lugares para ir, como restaurantes bares e clubes noturnos fecham – até as boulangeries e até as lojas de congelados fecham!

Em agosto o trânsito fica pior ainda por conta do “Paris Plage” , um evento realizado nas pistas de automóveis ao lado do Rio Sena e também por conta das inúmeras obras que são feitas para se aproveitar a cidade vazia.

Em agosto o número de dias de chuva triplicam.

Mas se outro alguém me perguntar se eu visitaria Paris em agosto, a resposta seria sem nenhuma hesitação: claro!






domingo, 18 de agosto de 2013

Chalet des Iles, no Bois de Boulogne



Dos mesmos donos do Café de l'Homme (fechado para reformas), do La Guinguette de Neuillye do Le Petit Poucet, de frutos do mar, o Chalet des Iles fica na ilha do Lac Inférieur do Bois de Boulogne e só se chega por barcos atracados em suas margens.

Com jeito de casa de campo, almoçar ou jantar em suas dependências é uma experiência singular e, no verão, as noites do Petit Chalet reúnem a juventude dourada parisiense em festas até o raiar do sol.

Porte de la Muette
16ème arrondissement
Telefone: 01 42 88 04 69
www.chalet-des-iles.com








sábado, 17 de agosto de 2013

Èze e Menton: duas pérolas da gastronomia francesa no Mediterrâneo

Vista da hotel Le Chèvre D’Or, em Èze. Foto: Bruno Agostini / O Globo

O repórter Bruno Agostini, de O Globo, publicou nesta quarta, (14 e atualizou ontem, 16), uma excelente reportagem sobre os restaurantes de Èze e Menton, na Riviera Francesa, que reproduzo e recomendo a leitura, segue a peça:


Boa mesa e vista privilegiada em Èze e Menton

Cidades da Riviera Francesa na fronteira com a Itália se destacam pela ótima gastronomia
NICE - Um jantar no restaurante La Chèvre d’Or, em Èze, é um longo e saboroso ritual, composto de várias etapas, e elementos: a vista para o Mar Mediterrâneo, o serviço cortês, a cozinha de alta classe e a carta de vinhos vasta e variada, conjunto que lhe confere duas merecidas estrelas Michelin, enchendo o salão noite sim, outra também. Reserve a mesa, de preferência, junto às grandes janelas que valorizam o cenário. O restante é com eles.

Quando cheguei ao bar, anunciando a minha reserva, o garçom perguntou se eu preferia começar com uma taça de champanhe, e uns petiscos, ali mesmo, nas mesas que ficam debruçadas sobre o mar. Isso não é sugestão que se recuse. Logo ele voltou, trazendo o sublime Taittinger Comtes de Champagne Rosé 2005 acompanhado de um delicado gaspacho de melancia, beterraba e maçã verde, e colherinhas com escabeche de cavala, além de azeitonas pretas e frutas secas, algumas apimentadas. O céu ainda estava claro, se azulando lindamente, quando subi ao salão do restaurante, e o couvert foi servido: um inédito, ao menos para mim, pão de limão siciliano, ao lado de grissini, sablé de parmesão, azeitonas pretas e tapenade, um prelúdio que me deu a certeza de que o jantar prometia.

Era só o começo. Escolhi um menu comemorativo dos 60 anos do hotel restaurante (€ 195), inaugurado em 1953. Com impecável harmonização de vinhos feita pelo sommelier Philippe Magne, há 24 anos na casa, os pratos foram servidos: tomatinho recheado de vitela e vegetais, com caldo do próprio cozimento da carne; tartare de atum com abacate, tomate e kiwi, com sablé de queijo, e sashimis do peixe coroados com caviar; camarões italianos, de San Remo, com vôngoles, favas, aspargos e pesto, e, finalmente, um clássico da casa, o prato mais emblemático do lugar, entre os mais famosos da Riviera Francesa, o cordeiro de leite, apresentado de duas maneiras, um carré impecavelmente grelhado, e um lombo, delicado e rosado, em crosta de ervas.

Depois da passagem de um carrinho de queijos daqueles memoráveis, e de um doce de limão que reproduz a aparência da fruta, as mignardises foram servidas com um armagnac 1933, sim, 1933... Duas décadas mais velho que o próprio hotel. Uma até vá lá, mas ninguém ostenta duas étoiles à toa

— Compramos em um leilão um lote de armagnacs antigos. Este 1933 virou um ícone de nossa carta de bebidas, e usamos também numa versão de foie gras. São um xodó — explicou-me, na manhã seguinte, Thierry Naidu, presidente do grupo Phoenix Hotels, que administra oito hotéis butique. — La Chèvre d’Or é nosso ícone — diz.

Para o almoço, há menus por a partir de € 75 (ou € 95, com harmonização de vinhos), com a mesma vista, o mesmo serviço e qualidade da comida, ainda que em preparações um pouco mais simples.

O hotel, que se espalha por boa parte da cidade, com alguns quartos que dão direto para a rua, como era o caso do meu, é uma razão e tanto para se visitar Èze, cidade dividida em três níveis que está entre as mais belas de toda a França. Há a cidadela medieval propriamente dita, com precioso casario de pedra; Èze-Bord-Mer, vila junto ao Mediterrâneo, e Col d’Èze, montanha acima.

— Hoje existem apenas seis famílias morando em Èze. Todas as construções viraram restaurantes, hotéis ou lojas. Há mais pintores que famílias, e são pelo menos dez artistas famosos morando aqui, produzindo e expondo os seus trabalhos — conta Thierry, casado com Federica Naidu, dona da galeria Incontri d’Art, vizinha ao hotel, uma das melhores, entre as tantas da cidade.

Apesar do mar de águas claras, e do charme praiano da porção mais baixa, é mesmo a vila de Èze o filé mignon do pedaço. Repleta de galerias de arte, cafés, lojinhas e restaurantes, tem um jardim com plantas exóticas com uma das melhores vistas possíveis do Mar Mediterrâneo. É um mirante com a vegetação estrangeira em primeiro plano, as construções antigas logo em seguida, as montanhas verdejantes à direita, e o mar imaculadamente azul, ao fundo.

Além de ser um lugar charmoso, pequeno, bom para se caminhar subindo e descendo suas ladeiras e escadarias, Èze é bem localizada para os que pretendem explorar a região sem precisar trocar de hotel. Não demoramos mais do que meia hora para chegarmos a Nice, Menton, Mônaco ou St-Paul-de-Vence, seguindo pela bela estrada panorâmica. Cannes, Mougins ou Antibes estão a menos de 45 minutos. Apesar do apelo dessas cidades nas redondezas, não é nada fácil sair de Èze.

Argentino conquista a França

Chegando ao restaurante Mirazur, em Menton, um tango moderno tocava baixinho na caixa de som. E quem me dá as boas-vindas, em bom português, é Julia Ramos Colagreco, carioca casada com o chef argentino Mauro Colagreco, que através de sua cozinha delicada, inventiva, original e de técnica impecável, conseguiu uma proeza: ser um dos cozinheiros de maior destaque no cenário gastronômico da França atualmente, admirado por gente como o mais importante — e temido — crítico do país, François Simon. Aos 36 anos, não chegou ao topo por acaso. Meu almoço na casa, que integra a associação Relais & Château, seguramente foi uma das melhores refeições de toda a vida. Além de tudo, a vista para o mar e o centro antigo de Menton é belíssima. O salão envidraçado valoriza esse patrimônio, e o serviço tem uma simpatia rara de se ver na França, incluindo garçons argentinos, desses que adoram o Brasil, e gostam de relatar as suas visitas ao país.

No Mirazur a gente se sente em casa como em poucos lugares na Europa. Sem falar na seleção de vinhos, de pequenos produtores, quase sempre biodinâmicos, naturais, escolhidos a dedo.

— Estamos a apenas 50 metros da Itália, que começa logo ali — diz Julia, apontando para o mato que ocupa as encostas vizinhas ao restaurante, dono de uma horta produtiva que abastece a cozinha com muitos produtos frescos cultivados ali mesmo.

Ainda impressionado com a vista, recebo o amuse bouche, com vários bocadinhos de apresentação impecável, entre eles uma anchova crua, fresquíssima, depositada sobre uma espécie de maionese caseira, cujo sabor até hoje está gravado na memória. Delicadeza é algo fundamental, e o pão da casa, quentinho, é servido com azeite aromatizado com limão (Menton é famosa por seus citrons) e uma folhinha com poema de Pablo Neruda (traduzido para o francês), “Ode ao pão”.

O primeiro ato foi uma espécie de canelone, cuja massa era uma lâmina finíssima de pera, que envolvia uma ostra crua, conjunto temperado por um creme de échalote, cebola ovalada e de sabor mais delicado. Logo depois, chegou uma saladinha das mais lindas e deliciosas que já pude provar, combinando vagens verdes e amarelas, flor de mostarda, cerejas frescas e cebola roxa, com um toque de limão siciliano e azeite. E que tal uma cumbuca de bottarga com batata, molho de café, abóbora, alcaparras e azeite, também temperado com café? Divino, ainda mais acompanhado de um copo do Domaine de Bellivière Les Rosiers, intenso e mineral. Valorizados pela louça que colabora para uma apresentação impecável de cada prato, não houve uma receita que destoasse.

O foie gras com daikon e consomê de pato perfumado com verbena estava sublime. O mesmo adjetivo pode ser usado para definir o charbonnier, um raro cogumelo colhido nas montanhas que envolvem Menton, servido com delicado creme de alho e flores de cebolinha francesa. Um filé de salmonete boiava sobre um caldo de cebolas, fumé de tamboril com sálvia e tripas de bacalhau fresco. O magret de pato, com molho de laranja em redução de cenoura, era acompanhado de mousseline de cenoura. Em vez de um prato de queijos, recebi uma lâmina cristalina e crocante de Munster, temperada com cominho e mel de acácia. Uma pouco doce combinação de ruibarbo com morangos, amoras e outras frutinhas frescas, além de sorbet de ervas selvagens foi o penúltimo passo. Encerrei com dois macarons, um de limão, outro de erva-mate, como se simbolizassem a união de Menton e Argentina.

O Mirazur é apenas a mais deliciosa razão para se ir até Menton, mas há muitas outras, a começar pela própria orla, com praia de piso pedregoso, repleta de bares, cafés, restaurantes e hotéis, além de um cassino movimentado. Entre os lugares mais interessantes da cidade para uma refeição praiana está o restaurante La Mandibule, raro endereço especializado na cozinha das Ilhas Reunião, com tempero indiano e pitadas tailandesas na cozinha francesa, resultando em receitas apimentadas. E vale, ainda, passar pelo centrinho antigo de Menton, com suas construções bem conservadas. Só não dá para não ir ao Mirazur.

SERVIÇO

ONDE FICAR

Château Eza: Hotel em forma de vila, com 12 quartos e suítes, quase todos com vistas para o Mar Mediterrâneo e as montanhas. Diárias a partir de € 360. Rue de la Pise, Èze. chateaueza.com

Hôtel Napoléon: Renovado em 2005. Diárias a partir de € 214. 29 Porte de France, Menton. napoleon-menton.com

ONDE COMER

La Chèvre d’Or: 5 Rue du Barri, Èze. Tel. (33) 4-9210-6666. chevredor.com

Mirazur: 30 Avenue Aristide Briand, Menton. Tel. (33) 4-9241-8686. mirazur.fr

La Mandibule: 1.014,Promenade du Soleil, Menton. Tel. (33) 4-9328-4195. lamandibule.com

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A gastronomia de Nice além da Salade Niçoise

Vista da bela e agitada Promenade des Anglais, o principal calçadão de Nice. Boa Viagem / O Globo
O repórter Bruno Agostini, de O Globo, publicou ontem (quinta, 15 e atualizou hoje), uma excelente reportagem sobre os restaurantes de Nice, na Riviera Francesa, que reproduzo e recomendo a leitura, segue a peça:


Em Nice, o caminho das estrelas da Riviera Francesa

Um roteiro que destaca cozinha mediterrânea, arquitetura e praias com influência italiana
NICE - Dirigir de Nice a Èze é um perigo. Não exatamente por conta da estrada sinuosa que serpenteia pela montanha, com curvas estreitas espremidas entre o abismo e a parede abrupta de pedra, mas devido à paisagem deste trecho da Riviera Francesa. Durante boa parte do trajeto, de menos de 15 quilômetros, o cenário é tão encantador que desvia a atenção do motorista, e a foto da capa desta edição não me deixa mentir. Por sorte não faltam mirantes para estacionarmos o carro e admirar o litoral com a calma que ele merece. (veja aqui mais imagens)

Do alto, vemos vilarejos e cidadezinhas costeiras, como Villefranche-sur-Mer e St-Jean-Cap-Ferrat, com suas marinas repletas abrigando alguns dos iates mais espetaculares do Mar Mediterrâneo e também barquinhos de pescadores. Alguns navios de cruzeiro estão fundeados mais distantes do litoral. Nos dias claros o sol realça os diversos tons que o mar nos apresenta nas águas de temperatura amena da Riviera Francesa.

Sem trânsito, não demoramos mais do que 30 minutos para chegarmos à Èze, estrategicamente localizada em um promontório vertiginoso, com panorama privilegiado e um centro antigo cheio de charme que abriga restaurantes estrelados, hotéis, pousadas, lojinhas e muitas galerias de arte. Seguindo pela mesma estrada cênica que acompanha o traçado do litoral, cerca de 17 quilômetros adiante chegamos novamente em menos de meia hora a Menton, já na fronteira com a Itália, onde encontramos o restaurante Mirazur, um desses raros endereços que, sozinhos, já justificam uma viagem.

Tempero italiano na Côte d’Azur

Acomodado no Le Relais, bar do clássico hotel Negresco, saboreio o ambiente elegante, a trilha sonora apropriada e um dry martini impecável. Poltronas de couro, mesas baixas de madeira, tapetes e um piano de cauda compõem um cenário digno dos muitos artistas que historicamente sempre frequentaram o local. O músico dedilha os teclados com um repertório que, repentinamente, se encharca de músicas brasileiras. Jobim, Benjor e outros nomes da MPB se revezam no set list. A seleção etílica está à altura do que se espera de um bom bar, com coquetéis clássicos, como negroni e gim tônica, preparados à perfeição (e preços na faixa dos € 18).

Mesmo que não tivesse tais predicados, o bar do Negresco poderia ser classificado como endereço fundamental para entender Nice. Porque sentar ali, ainda que por breve período, é uma das maneiras mais fáceis de se visitar o hotel, um ícone da cidade, um cartão-postal, praticamente um museu, com peças bizarras e outras engraçadas — muitas delas ocupando o imenso salão arredondado com uma linda cúpula, repleto de obras de arte, muitas de gosto duvidoso — e uma pequena exposição sobre a história do lugar, onde não faltam elementos que podemos classificar de kitsch, como os banheiros de decoração extravagante (imperdíveis) e a coleção de cadeiras de barbeiro.

Outra possibilidade é marcar um jantar no restaurante Chantecler, dono de duas estrelas Michelin, que serve receitas como lagostins grelhados com molho de pimenta de Espelette ou outras mais exóticas, como pedaços de cabeça de vitela crocantes, com menus que custam entre € 58 e € 140.

Se o Negresco está para Nice como o Copacabana Palace para o Rio (e ambos pertencem à associação The Leading Hotels of the World), a Promenade des Anglais, onde fica o hotel, é a Avenida Atlântica da cidade. Pelo seu calçadão circulam e se misturam moradores e turistas, caminhando, correndo ou pedalam na ciclovia. Em vez de quiosques há barracas de praia, loteamentos privados, quase sempre pertencentes aos hotéis que ficam defronte a eles, com estrutura impressionante, incluindo grandes cozinhas, cadeiras, mesas e guarda-sóis. Parar em alguma delas, como a Galeon Plage, faz parte do ritual turístico niçoise, nem que seja apenas para beber uma taça de rosé. O chão de pedras da praia não é dos mais convidativos, porém o mar azul de águas tranquilas e de temperatura amena do Mediterrâneo é aquele mesmo que deu fama à região, e nadar ali não é nada mau.

À certa altura da Promenade des Anglais encontramos o Jardin Albert 1er, que passa por reformas para ser reinaugurado mês que vem. O lindo projeto paisagístico inclui o maior espelho d’água da Europa, com espetáculos diários de água e luz. As obras prometem transformar o bar da cobertura do hotel Aston em um dos pontos mais badalados da cidade, com sua vista privilegiada para a grande esplanada que, emendando com a Promenade du Paillon, se converte em uma aprazível área de pedestres, marco divisório, onde começa Le Vieux-Nice, o centro antigo da cidade.

É justamente ali um dos pontos mais agradáveis de Nice, com prédios de estilo tipicamente italiano, como os que encontramos na Ligúria, revelando a origem conturbada da cidade, marcada por guerras, anexações e diversos tratados. Até meados do século XVIII, Nice, e todo o restante da porção oriental da Riviera Francesa, pertenceram ao Ducado de Saboia e, posteriormente, ao reino do Piemonte-Sardenha, da Casa de Saboia, embrião do estado italiano.

A História explica muito a respeito da cidade hoje com um milhão de habitantes, a começar pelo apelido Nissa La Bella, além da gastronomia e da arquitetura. As placas com os nomes das ruas na área histórica são escritas em francês e niçardo, a língua local, mais próxima do italiano que do francês. A Cours Saleya é uma praça comprida, no coração da área histórica, repleta de restaurantes bares e cafés com mesas externas. Abriga um colorido e perfumado mercado de flores e alimentos, que às segundas-feiras cede lugar para barracas de antiguidades com ótimas peças, mas de preços altos.

O verão de Matisse

O clima, as cores e o estilo de vida da Côte d’Azur sempre atraíram legiões de artistas à região, muitas vezes durante o inverno, fugindo do frio das áreas mais ao norte da Europa. Entre os nomes que viveram em Nice, ou passaram longos e produtivos períodos ali, estão Claude Monet, Edvard Munch e Henri Matisse, o mais niçoise entre os pintores famosos ligados à cidade. Além de ter morado em Nice, em vários locais, inclusive residindo no Hôtel Beau Rivage, Matisse viveu também em Cimiez, bairro chique nas montanhas que envolvem Nice, onde está enterrado. Na Avenue des Arènes de Cimiez fica o Museu Matisse (musee-matisse-nice.org), que completa 50 anos com uma série de exposições, em cartaz até 23 de setembro, celebrando a sua obra.

Marc Chagall morou em St-Paul-de-Vence, perto dali, e também andou por Nice, que abriga um museu com seu nome (musee-chagall.fr), na Avenue Docteur Menard, que mantém mais de 250 peças criadas por ele, com destaque para as que exploram a temática bíblica.

Saladas, alevinos e rosés

Falar de cozinha francesa é algo genérico que reúne sob uma mesma expressão uma série de receitas regionais que acabaram consagradas mundo afora pela hotelaria, e pelos bistrôs. O que existe mesmo é a culinária regional: a provençal, a alsaciana e a bretã, entre outras, representando cada parte do país, com cardápios muito diferentes entre si de acordo com os ingredientes e as tradições locais.

Apenas duas cidades apresentam uma cozinha própria, com identidade bem particular, Lyon, a capital gastronômica do país, e Nice, combinando elementos da vizinhança: a culinária niçoise seria uma interseção mediterrânea entre a Provence e o Norte da Itália, com influências do Piemonte e da Ligúria. Ou seja, algo delicioso, quase sempre leve, baseado em matéria-prima sazonal, explorando o frescor, combinando pescados os mais diversos, massas, azeites, ervas e muitos legumes e verduras.

Emblema maior dessa riqueza gastronômica com alicerces na simplicidade, a salada niçoise é um ícone, servida apenas nos meses mais quentes do ano com os vegetais disponíveis na feira, todos crus, incluindo ervas, legumes, folhas e flores (alcachofra, de abobrinha), com atum em conserva, alici e ovo cozido, além de azeite. Muito comum em bares e restaurantes, o pan bagnat é uma espécie de sanduíche de salada niçoise, e vale por uma refeição.

Encontrar uma niçoise perfeita não é difícil, porque a matéria-prima está ali, disponível durante todo o verão. Porém, alguns lugares fizeram fama por oferecer uma receita impecável, baseada, como deve ser, na simplicidade. Caso do Chez Palmyre, na Rue Droite, no centro antigo, lugar conhecido por servir o receituário niçoise como preparado em casa, com destaque para a tal salada, que vai maravilhosamente bem com vinhos rosados da Provence, ou, então, melhor ainda, com um Bellet, a pequena denominação local, com vinhedos nas montanhas dos arredores de Nice.

Nessa mesma rua encontramos o Acchiardo, outra referência fundamental em termos de cardápio niçoise, comandado por uma família, com pai e filhos se dividindo no serviço, com simpatia e preços acessíveis (a salada niçoise custa € 9, e os pratos do dia, como um tagliatelle com azeitonas e pato, sai por menos de € 15).

Falando em cozinha tradicional, o restaurante La Merenda é o mais concorrido. Não aceita reservas nem cartões de crédito, vive cheio, com mesas espremidas no pequeno salão. Pilotando a cozinha está o chef Dominique Le Stanc, que deixou uma carreira sólida no Chantecler, do hotel Negresco, para abrir a sua própria casa, onde serve clássicos de Nice, incluindo as poutines, que são alevinos, quase sempre de sardinhas, também conhecidos como nonnat. São servidos tradicionalmente de várias maneiras: em omeletes, enriquecendo sopas ou simplesmente depositados, crus, sobre uma torradinha, e qualquer semelhança com a bruschetta não é mera coincidência. A Itália é logo ali.

Outra iguaria emblemática que compõe a dieta essencial do turista é a pissaladière, encontrada em todo canto, uma espécie de pizza com cobertura de cebolas, cozidas longamente, até virarem quase uma pasta, levemente caramelizada, que contrasta com o sabor salgado de anchovas e azeitonas pretas. Perfeita para um lanche rápido, a iguaria é vendida em padarias, para se comer na rua. As que formam fila são as mais confiáveis, caso da La Fougasserie, entre a Rue de la Prefecture e a Cours Saleya.

Na feira que acontece na Cours Saleya, a personagem mais famosa é Theresa, que virou celebridade por servir a melhor socca da cidade, um disco de massa feita com grão de bico e assada em forno a lenha, mais uma iguaria típica da cozinha niçoise (o pedaço custa € 2,50).

Representando uma linhagem mais moderna da cozinha de Nice, de caráter mais autoral, o restaurante Luc Salcedo tem o tamanho exato para ter um chef na cozinha, e a sua mulher, e uma ajudante, no salão. Não deixe de reservar, porque a cozinha cuidadosa de Salcedo apresenta receitas que exploram com criatividade e boa técnica os ingredientes locais. O cozinheiro que batiza a casa é craque no preparo de terrines (a de pato ao curry é incrível), e o menu varia regularmente, servindo receitas como carpaccio com vinagrete ao pesto e vegetais crocantes. As entradas custam € 16; os pratos principais, € 26, e as sobremesas € 12, e também existem menus degustação por € 45 ou € 65.

A uma curta caminhada do centro antigo, a área do porto é outro aglomerado de bons restaurantes. Peixes e frutos do mar são elemento comum nas cozinhas de Nice. Mas poucos tratam os pescados com tanto cuidado como o chef Michel Devillers, do L’Ane Rouge, que mostra orgulhosamente aos clientes a matéria-prima sempre fresca que recebe diariamente, e em seguida transforma em receitas simples, de execução segura, como o filé de trilha sobre guacamole, e o lombo de bacalhau fresco com molho de tomate.

Além de tudo, ainda tem a vista (peça uma mesa do lado de fora), que fica ainda mais linda ao anoitecer, com os barquinhos balançando nas águas, as luzes da cidade se acendendo e o céu se pintando de azul.

Para aprender a cozinhar e a fazer perfume

Para quem quer não só provar as delícias da cozinha de Nice mas também botar a mão na massa e aprender algumas receitas locais, a canadense Rosa Jackson, criadora da Les Petits Farcis — que faz passeios gastronômicos e oferece aulas de cozinha — tem a fórmula exata. O programa começa na Cours Saleya, quando selecionamos os ingredientes do menu, que pode ser escolhido de acordo com a preferência do participante.

Queria uma salada niçoise, e compramos tudo o que precisávamos para a receita. No caminho para a casa onde acontecem as aulas, ainda paramos na Lou Froumaï, incrível loja de queijos locais. Na cozinha do apartamento, no coração do centro antigo de Nice, todos arregaçaram as mangas para preparar o cardápio do dia: salada niçoise, bouillabaisse e torta de limão.

Ainda em Vieux-Nice, a Parfumerie Molinard organiza aulas para ensinar a criar perfumes, usando cerca de 200 essências de base, combinadas em fórmulas únicas. No final, levamos um frasco para casa, e ainda podemos encomendar de novo, através do site, com entrega no Brasil.

SERVIÇO

ONDE FICAR

West End: Tradicional hotel de 170 anos. Diárias a € 189. 31 Promenade des Anglais, Nice. hotel-westend.com

Hôtel Negresco: Destaque para o restaurante Le Chantecler e a La Rotonde Brasserie. Diárias para casal a partir de € 410. 37 Promenade des Anglais, Nice. hotel-negresco-nice.com

Clarion Grand Hôtel Aston: Oferece belas vistas para a cidade. Diárias para casal a partir de € 144. 12 Avenue Felix Faure, Nice. hotel-aston.com

Beau Rivage: Matisse morou neste hotel. Diárias a partir de € 149. 24 Rue Saint-François de Paule, Nice. hotelnicebeaurivage.com

ONDE COMER

Chez Palmyre: 5 Rue Droite, Nice. Tel. (33) 4-385-7232.

Acchiardo: 38 Rue Droite, Nice. Tel. (33) 4-9385-5116.

La Merenda: 4 Rue Raoul Bosio, Nice. lamerenda.net

Luc Salsedo: 14 Rue Maccarani, Nice. Tel. (33) 4-9382-2412. restaurant-salsedo.com

AULAS

Les Petits Farcis: As aulas são realizadas para grupos entre duas e sete pessoas, e custam €195 por pessoa, incluindo o almoço, com vinho. petisfarcis.com

Molinard: Os workshops de perfumaria custam € 59. 20 Rue St François de Paule, Nice. Tel. (33) 4-9362-9050. molinard.com