sábado, 7 de fevereiro de 2015

Viúva de atirador da França dá entrevista a jihadistas

Paris Geiselnahme jüdischer Supermarkt - Fahndungsfoto Hayat Boumeddiene

Hayat Boumeddiene, mulher de Amedy Coulibaly, estaria em território controlado pelo "Estado Islâmico". Ela vem sendo procurada pela polícia desde os atentados de janeiro, que deixaram 20 mortos em Paris.

Procurada pela polícia francesa desde os atentados ocorridos em Paris há um mês, Hayat Boumeddiene, 26 anos, teria dado entrevista a um veículo que faz propaganda do "Estado Islâmico" (EI). As declarações da mulher, suspeita de cumplicidade nos ataques que deixaram 20 mortos, foram publicadas na revista nas edições de quarta e quinta-feira (11 e 12/02), e seriam a prova de que a viúva do sequestrador Amedy Coulibaly, que matou quatro pessoas em um mercado kosher no dia 9 de janeiro, teria chegado ao território controlado pelo EI.

Sem citar explicitamente seu nome ou publicar fotos de Boumedienne, os jihadistas referem-se a ela como "esposa do nosso irmão" Umm Basur al-Muhajirah, citando o nome adotado por Coulibaly. O sequestrador confessou ter coordenado o ataque ao semanário satírico francês Charlie Hebdo, juntamente com os irmãos Kouachi no mês passado. Said e Cherif Kouachi invadiram a redação da revista no dia 7 de janeiro e mataram 12 pessoas.

Na suposta entrevista, divulgada em inglês e francês, Boumedienne afirma que o marido tinha um "desejo ardente de se juntar aos irmãos e lutar contra os inimigos de Alá em solo do califado", e o teria feito se não tivesse levado à frente a intenção de realizar os atentados na França. Ela faz menção a passagens do Corão.

Além das quatro mortes do supermercado, Coulibaly também matou uma policial no primeiro dos três dias de terror vividos na capital francesa, antes de ser morto pela polícia. Apesar de ter deixado a França pouco antes dos ataques, segundo a polícia, Boumedienne é considerada peça-chave nas investigações dos atentados. Autoridades turcas afirmam que ela cruzou o país em direção à Síria um dia após o ataque ao Charlie Hebdo.

Com informações da Deutsche Welle.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A frágil ascensão de Hollande na França

Francois Hollande Wahl in Frankreich

Antes o mais impopular do pós-guerra, presidente se beneficiou da comoção com atentados e viu sua aprovação dobrar. Mas analistas apostam que fenômeno é passageiro, como aconteceu com Bush após o 11 de Setembro.

Poucos políticos caíram tão profundamente ou subiram tão rápido nas pesquisas de opinião quanto François Hollande. Desde os ataques em Paris, há cerca de um mês, o presidente francês mais impopular do pós-guerra tem visto sua popularidade aumentar – dobrando para 40%, o nível mais alto em dois anos.

De uma figura política tida como ridícula, considerada incapaz de ajudar uma adoentada França, Hollande tem emergido como estadista digno de reconhecimento, que levou uma nação a enfrentar conjuntamente o luto e ofereceu uma saída para o futuro.

"É algo único, nunca vimos isso antes", afirma o sociólogo Michel Wieviorka. "E ele não é o único que está subindo. O primeiro-ministro Manuel Valls está indo ainda mais alto."

Poucos analistas políticos, porém, acreditam que essa alta vá perdurar. "Todos lembram que, no passado, quando um político recebeu muito apoio, ele caiu muito rapidamente, bem para baixo", completa Wieviorka.

Queda e retomada

Um ano atrás, Hollande mostrava-se humilhado e derrotado, abalado por uma série de indicadores econômicos sombrios e por relatos de um suposto caso extraconjugal com a atriz francesa Julie Gayet.

Pouco tempo depois, ele terminou a relação com sua companheira de longa data Valérie Trieweiler, que acabou escrevendo um livro onde acusava o líder socialista de zombar dos pobres como "desdentados".

Hoje, no entanto, ele é mais lembrado marchando lado a lado com líderes mundiais nas manifestações em prol da liberdade de expressão em Paris e por anunciar uma série de medidas para conter o jihadismo na França.

"As medidas corretas foram tomadas de imediato, logo depois dos ataques", afirma a professora aposentada Maryse Pinheiro. Ela, uma socialista convicta, acredita que os ataques provaram que os críticos de Hollande estavam errados. "As pessoas agora veem que ele é realmente forte, que ele não é um molenga. Ele é um homem sério e pragmático, que sabe como se adaptar à situação. Acho que a popularidade de Monsieur Hollande vai continuar subindo."

Paris, Washington

No entanto, a história sugere o contrário. Assim como Hollande, o presidente George W. Bush viu sua popularidade disparar após o 11 de Setembro, chegando a 90% de aprovação.

"Quando acontece um evento maior que ameaça a nação, isso motiva a unidade nacional – o que beneficia aquele que personifica essa unidade", explica Étienne Schweisguth, do Instituto de Estudos Políticos de Paris. "Mas isso só perdura enquanto as pessoas acharem que a nação está ameaçada."

Bush manteve o clima de unidade nacional, lembra Schweisguth, ao declarar guerra ao Iraque, no início de 2003. Mesmo assim, seis anos mais tarde, ele deixou o cargo como um dos presidentes mais impopulares da história do país, com somente 22% de aprovação.

Na França, persiste o sentimento de uma nação ameaçada. Na terça-feira, um assaltante empunhando uma faca feriu levemente três soldados que patrulhavam um centro da comunidade judaica na cidade de Nice. Hollande também está tentando consolidar uma sensação de unidade nacional, dando atenção a populações judaicas e muçulmanas do país, que se sentiram vítimas dos ataques.

No mês passado, o governo anunciou uma série de medidas para erradicar algumas causas do terrorismo doméstico, que vão de lições sobre laicismo nas escolas, passando pelo aumento de capelães muçulmanos nas prisões, à criação de mais empregos em subúrbios desfavorecidos, vistos como um terreno fértil para jihadistas. Mais recentemente, ele despachou milhares de soldados e policiais franceses para patrulhar instituições religiosas e outros locais públicos sensíveis.

Observadores veem as recentes medidas de forma mista. "Psicologicamente, é bom enviar o Exército para vigiar escolas judaicas e outros lugares, porque isso tranquiliza os cidadãos", diz o especialista em terrorismo Mathieu Guidère, da Universidade de Toulouse. "Mas do ponto de vista da segurança, sabemos que os jihadistas têm como alvo os militares e os judeus, então esses dois alvos são colocados no mesmo lugar."

Eleições como termômetro

Por enquanto, os holofotes estão voltados para Hollande e seu governo. Um arquirrival, o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, que retomou a presidência do partido de centro-direita UMP, não está chamando muita atenção.

Por sua vez, a líder da extrema direita, Marine Le Pen, da Frente Nacional, permaneceu na retaguarda depois dos ataques – o que, segundo analistas, pode vir a ser uma estratégia sábia.

Poucos acreditam que este período de distensão vai continuar. Todos os velhos problemas que assombram o governo de Hollande persistem, e a França terá eleições municipais em março. De fato, dados divulgados na semana passada mostram que o desemprego atingiu um novo recorde em dezembro último, e que a economia mal cresce.

"É claro, após esse ataque terrorista, houve muita comoção. Todos queriam estar juntos. Mas hoje sabemos que grandes debates estão por começar", diz Wieviorka. "E todos os problemas que criaram o terrorismo ainda estão aqui", completa o analista político.

Conversas nos arredores de Paris também sugerem um retorno à realidade. "Acho que Hollande fez o melhor – ao menos, ele não cometeu nenhum erro", afirma a empresária Nathalie Baylac, que normalmente apoia a ala de centro-direita. "Mas isso não vai mudar o meu voto. Eu realmente não tenho muita confiança em nenhum político.

Com informações da Deutsche Welle.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Maison du Brésil, em Paris, está em risco por falta de pagamento




Segundo a jornalista Fernanda Pontes, da Coluna Gente Boa de O Globo, a Maison du Brésil, fundação que recebe doutorandos e pesquisadores brasileiros em Paris, pode ser desapropriada pelo governo da França por falta de pagamento. A Maison teria deixado de receber o subsídio anual do Ministério da Educação (cerca de 185 mil euros) desde 2009 e, por conta disso, está sobrevivendo apenas do aluguel dos apartamentos dos residentes.

Aliás e a propósito

Projetado por Lucio Costa e Le Corbusier e tombado pelo patrimônio histórico francês, o edifício de seis andares — onde estudaram Joaquim Pedro de Andrade, Jaime Lerner, Sebastião Salgado, Arthur Moreira Lima e Zózimo Barroso do Amaral — está em situação precária. “Há infiltrações no telhado e a calefação funciona mal, os estudantes estão passando frio”, conta o presidente da Academia Brasileira de Filosofia João Ricardo Moderno, que esteve lá recentemente.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Prisões francesas, antros do Islã radical, passam por reformulação após atentados em Paris



Segundo uma reportagem do jornal The Washington Post, foi em uma delas que os responsáveis pelos atentados se radicalizaram e tornaram-se extremistas - segue a matéria:

"FLEURY-MEROGIS, FRANÇA — O homem foi enviado para a maior prisão da França por assalto à mão armada. E emergiu dela como um implacável radical que viria a participar de alguns dos mais sangrentos ataques terroristas em solo francês em décadas.

As prisões da França têm reputação de fábricas de radicais islâmicos, pegando criminosos comuns e transformando-os nas mais perigosas pessoas. Na prisão de Fleury-Merogis — onde Amedy Coulibaly passou um tempo ao lado de outro dos envolvidos nos ataques mortais neste mês em Paris e no subúrbio da capital francesa —, autoridades estão lutando para acabar com um problema que eles dizem que por muito tempo ameaçava explodir.

Ex-detentos, imãs e guardas, todos descrevem uma cena caótica dentro destas paredes de concreto, a pouco mais de 20 quilômetros das elegantes avenidas que cercam a Torre Eiffel. A militância se esgueira nas sombras, e os homens mais bem-comportados são, por vezes, os mais perigosos. O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, prometeu, na semana passada, inundar as prisões de seu país com mais 60 capelães muçulmanos, dobrando seu orçamento para tentar combater a radicalização. Nesta semana, autoridades revistaram 80 celas de suspeitos radicais, dizendo que encontraram celulares, pen-drives e outros objetos não permitidos. Centenas de detentos em prisões francesas são uma ameaça potencial, dizem as autoridades.

Mas os críticos dizem que esses esforços são minúsculos em comparação com o tamanho do problema, com prisões tão mal controladas que um relatório vazado do governo francês descreve cartazes de Osama bin Laden pendurados nas paredes dos detentos. O desafio pode ser agravado pelas dezenas de pessoas enviadas para a prisão após os recentes ataques, alguns há mais de um ano, sob processos acelerados em que foram acusados de apoio verbal ao terrorismo.

— A prisão destrói os homens — disse Mohamed Boina M'Koubou, um imã que trabalha na prisão de Fleury-Merogis. — Há pessoas que são alvos fáceis de detectar e transformar em assassinos.

Coulibaly havia dito à polícia que ele conheceu “terroristas” durante suas temporadas na prisão, assim como negou que era um deles.

— Se você quiser que eu fale de todos os terroristas que conheço, vou tomar um tempo seu. Eu conheço todos eles: os chechenos, os afegãos — disse Coulibaly à polícia, em 2010, de acordo com documentos judiciais de um julgamento naquele ano, em que ele foi condenado por tentar ajudar um homem que havia planejado os atentados de 1995 no metrô de Paris a fugir da cadeia. — Eu os conheci na prisão, mas isso não significa que eu ainda me interesse por eles agora.

As malcuidadas prisões são lugares ideais para espalhar a violenta ideologia — em muitos aspectos, ainda melhor do que do lado de fora dos portões da prisão. A maioria dos prisioneiros passam até nove horas por dia relativamente misturados, sem supervisão, contam os guardas, em primeiro lugar, no trabalho e, em seguida, no pátio da prisão. Serviços de Inteligência franceses se orgulham da infiltração nas redes de militantes em seu país — mas as prisões estão sob um comando diferente, dizem os especialistas, em que muitos radicais não são percebidos, descobertos, pelos guardas.

Outras nações, incluindo os Estados Unidos e o Reino Unido, também têm lutado contra a radicalização nas prisões. Mas a questão mostrou-se especialmente complicada na França, onde os especialistas estimam que os muçulmanos constituem mais da metade dos 68 mil detentos do país, embora sejam apenas 5% a 10% da população total. Mas existem apenas cerca de 170 imãs atualmente ministrando dentro das prisões.

— O número de pessoas que trabalham na Inteligência dentro das prisões é uma ninharia — afirma o sociólogo Farhad Khosrokhavar, da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais de Paris, que estudou radicalização na prisão, acrescentando que os presos mais perigosos são aqueles que sabem como se misturar. — A maioria das pessoas que se radicalizou na prisão sabia muito bem que não se devia deixar crescer a barba, nem ir à oração coletiva na sexta-feira, quando houvesse. Aqueles que fizessem isso, chamariam a atenção dos guardas, e geralmente seriam os inofensivos.

Os agentes penitenciários, que são normalmente responsáveis por cem detentos, cada um, dizem que podem fazer pouco em relação ao problema.

— Eles se adaptam mais rápido do que nós — explica David Dulondel, que trabalha como guarda na prisão de Fleury-Merogis e é o chefe de um sindicato local. — Não temos ninguém treinado para antirradicalização. Como está hoje, não podemos dizer se se alguém está em processo de radicalização ou não.

Valls propôs isolar os presos mais perigosos juntos, em vez de permitir que eles se misturem com a população carcerária comum. Os críticos questionam se é possível identificar os detentos certos, e perguntam se agrupá-los não seria simplesmente criar células radicalizadores ainda mais fortes dentro das prisões.

A prisão de Merogis era onipresente quando Coulibaly estava crescendo na vizinhança ao lado, no subúrbio parisiense de Grigny, em um conjunto habitacional tão atormentado pela violência que os correios fecharam o posto que tinha ali, no ano passado, porque havia sido roubado várias vezes. Os moradores fazem humor negro, dizendo que a prisão era apenas mais um bairro da região, uma vez que as pessoas entravam e saiam dela regularmente.

Foi dentro do perímetro de arame farpado de Fleury-Merogis, em 2005, que Coulibaly encontrou dois homens que mudariam sua vida. Um deles foi Djamel Beghal, um preso franco-argelino que havia sido condenado por conspirar para explodir a Embaixada dos EUA em Paris, em 2001, e foi um belo, articulado e sedutor defensor da violência em nome da religião.

— Beghal “estava bem acima de mim” na prisão — disse Coulibaly à polícia. — Beghal não pregou na prisão, mas respondeu a perguntas dos detentos sobre o Islã.

A prisão é o local ideal para passar mensagens uns aos outros com as garrafas de refrigerante amarrados a folhas rasgadas que prisioneiros podiam passar pelas janelas. A estratégia de comunicação funcionou, embora Beghal, que era visto como um radicalizador extraordinariamente perigoso, estivesse em confinamento solitário. Coulibaly gravou o método da vida na prisão em vídeo, que ele filmou e conseguiu enviar, ilegalmente, para fora da prisão a uma rede de televisão francesa.

O outro homem que Coulibaly conheceu na prisão foi Chérif Kouachi, que com seu irmão Saïd matou 12 pessoas neste mês, no ataque à redação do semanário satírico “Charlie Hebdo”. Na época, Kouachi estava cumprindo pena por uma tentativa fracassada de ir ao Iraque para lutar. Seu período na prisão o endureceu ainda mais. Os advogados envolvidos no caso assistiram à transformação do jihadista amador em um homem carrancudo que já resistiu a três dias de tentativas da polícia para interrogá-lo.

— Muitos dos meus clientes foram radicalizados na prisão — contou Dominique Many, um advogado de defesa que esteve envolvido no caso de 2005, em que Kouachi e outros foram condenados pela tentativa de ir ao Iraque para lutar pela jihad. — Eles são muito bem organizados. Sabem como proteger os mais fracos para atraí-los para o sistema. Dizem que você é da família, e então você está fisgado.

A radicalização que acontece dentro da prisão permanece por muito tempo depois que os presos são libertados.

— Quando você está na prisão por dez anos e em contacto com essas pessoas, é muito difícil de sair e mudar as coisas ao redor – explica o pesquisador Myriam Benraad, da Universidade Sciences Po de Paris, especialista em movimentos militantes que estudou a gangue de Kouachi.

A ameaça tem sido longamente analisada pelo governo francês — prisioneiros radicalizados, uma vez soltos, são “bombas-relógio”, de acordo com um relatório de 2005 do governo, que vazou, sobre o problema.

Mas para M'Koubou, o imã da prisão, alguns dos insistentes problemas são quase impossíveis de erradicar. É por isso que, em uma recente viagem para longe de prisão, para uma temporada de estudos em Paris, ele comprou um pesado livro que ele pretende ler imediatamente: “Al-Qaeda na França”."

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

De Paris à Normandia monumentos abertos à visitação são recuperados em toda a França


Acesso ao Monte Saint-Michel, na Normandia, agora é feito por micro-ônibus ou a pé
Foto: Mark Rapillard/CMN / Divulgação

"Este ano, a Abadia do Monte Saint-Michel, na Normandia, conclui amplo projeto de renovação, iniciado em 2010, embora já esteja funcionando plenamente. Como parte das obras, o acesso de automóveis particulares, ou ônibus, foi limitado a um estacionamento no continente. Quem chega de carro tem que deixá-lo no novo estacionamento. Há cerca de dois anos, o acesso já vem sendo feito por micro-ônibus — ou a pé — até a base do monte.

Com 1,2 milhão de visitantes ao ano, a Abadia do Monte Saint-Michel (o ingresso sai a € 9) é o segundo monumento nacional mais visitado entre os que estão sob a alçada do Centro de Monumentos Nacionais (CMN) na França, depois do Arco do Triunfo, que recebeu 1,7 milhão de pessoas em 2014. Os 82 monumentos administrados pelo CMN abertos ao público recebem 9,2 milhões de visitantes ao ano.

Muitos, como a Abadia do Monte Saint-Michel, integram as listas de patrimônio mundial da Unesco. A CMN não considera atrações de administração privada, por exemplo, como a Torre Eiffel, que recebe sete milhões de visitantes ao ano.

Para visitar a Abadia do Monte Saint-Michel, é preciso ficar de olho na tábua das marés, aconselha William Roussel, chefe do Polo de Desenvolvimento Turístico Internacional do CMN, que esteve no Rio recentemente:

— Na temporada de verão, quem pernoita por lá pode aproveitar a programação noturna. E se for em um dos cinco ou seis dias no ano de maré cheia, o local ganha atmosfera especial. No vilarejo no entorno da abadia, há pousadas, bares e comércio. E há uma passarela para evitar o isolamento na maré alta.

Voltando ao Arco do Triunfo, em Paris, Roussel lembra que o monumento — cujo mirante pode ser visitado — oferece bela vista para a cidade com o Champs Élysées em destaque. E está aberto diariamente até as 22h30m no inverno (ingressos a € 9,50).

Roussel destaca a Sainte-Chapelle, na antiga residência de Luís IX, e que integra, com a Conciergerie, o complexo do Palácio da Justiça, na Île de la Cité, em frente à catedral de Notre-Dame. A capela abriga a relíquia da coroa de espinhos de Cristo e importantes vitrais.

— Os vitrais são lindos. É um dos meus monumentos favoritos — diz Roussel.

O Panteão, que também passa por trabalhos de renovação, mas continua aberto normalmente, se prepara receber as cinzas de quatro figuras notáveis da Segunda Guerra Mundial — Germaine Tillion, Geneviève de Gaulle-Anthonioz, Pierre Brossolette e Jean Zay, no dia 27 de maio, e terá uma exposição sobre o tema da Resistência. Ainda como parte das comemorações do centenário da Primeira Guerra Mundial, celebrado em 2014, a exposição “Jaurès contemporaines 1914-2014” foi prolongada até 21 de março de 2015.

HOMENAGEM A LE CORBUSIER

No Norte do país, perto de Lille e da fronteira com a Bélgica, em Nord-Pas de Calais, a Villa Cavrois homenageia o cinquentenário de morte de Le Corbusier, abrindo as portas em junho, conta Roussel:

— Era uma casa de uma família rica da indústria têxtil, da década de 1930, planejada pelo arquiteto Robert Mallet-Stevens, e foi recuperada.

Em outras regiões da França, monumentos como o Castelo de If, na Baía de Marselha, na Provence, cuja história está ligada à do conde de Monte Cristo, em romance de Alexandre Dumas, também ganham destaque na lista de CMN. Vale lembrar que Marselha foi capital da cultura em 2014, com série de novos museus e atrações.

Em Cote d’Azur, o Fort de Brégançon, antiga casa presidencial será aberta ao público em maio, pelo segundo ano consecutivo (ingressos a € 10), desta vez, de maio a setembro (em 2014 foram dois meses). O forte fica num pico rochoso, debruçado a 35 metros sobre o Mediterrâneo."

Reportagem de Cristina Massarie, do jornal O Globo.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Bar des Théatres - meu Café Lamas em Paris


Como bom carioca que sou, amo um bife com batatas fritas e onde moro ou tenha morado, elegia um restaurante para, ao menos uma vez por semana, comer o meu amado bifinho.

No Rio, o meu preferido é o do Café Lamas, no Flamengo que, para um restaurante brasileiro, é uma instituição: são quase 140 anos servindo o que considero o melhor Filet Mignon com Fritas do Rio de Janeiro.

Em São Paulo, o meu imbatível era o do Le Vin dos Jardins, na Alameda Tietê que me servia um excelente Contra-Filet com Batatas “Canoa” e em Brasília me fartava no Cavalcante, um pé-sujo na Asa Norte, mais precisamente na 405N.

Quando comecei a frequentar, levado pelo meu amigo e chefe, à época, o Jornalista Tales Faria, o Cavalcante que era o dono já havia morrido, mas para vocês sentirem o drama, o nome mesmo do lugar é Ki Filé. E realmente era um super filet com fritas. Ah, que filet!

Aqui em Paris elegi o Bar des Théatres, que fica no número 44 da Rue Jean Goujon (antes ficava na mítica Avenue Montaigne) , no 8ème arrondissement, como o meu lugar de filet com fritas.

Hoje lá fui almoçar com minha mulher e duas amigas numa tarde inesquecível com muitas risadas, muitas lembranças, muito carinho e muitos bifes: éramos quatro na mesa (todos pedimos), com direito a muitas batatas fritas e um excelente molho Béarnaise, que para mim é o melhor molho para acompanhar batatas fritas e filet.

Apesar do Béarnaise tem o nome de quem nasce na região de Béarn, ao sudoeste da França, ele foi criado por um Chef de Cuisine do Pavillon Henri IV que fica em Saint-Germain-en-Laye, em um excelente restaurante com o Rio Sena à frente e uma vista de Paris ao longe.

Como o restaurante já era nomeado em homenagem ao Rei Henry IV que nascera em Bearn, este chef resolveu, duzentos anos após a morte do rei, fazer uma nova homenagem, desta vez dando o nome da região de onde ele vinha.

Para quem ficou com vontade, aí vai a receita do Béarnaise, para quatro pessoas.

Ingredientes:
1 folha de louro
1 limão
1 raminho de tomilho
125g de manteiga gelada em cubinhos
2 colheres de sopa de estragão fresco picado
2 gemas
4 cebolas roxas pequenas picadas
4 colheres de sopa de vinagre de vinho branco
4 colheres de sopa de vinho branco
Sal e pimenta em grão quebrada a gosto

Como preparar:
• Leve ao fogo, numa panela pequena, a cebola, a pimenta e 1 colher de sopa de estragão, o tomilho, a folha de louro, o vinho branco, o vinagre e o sal;
• Deixe reduzir o líquido, até que sobre apenas 1 colher de sopa;
• Peneire tudo;
• Em uma panela ou tigela, misture bem as gemas com o líquido reduzido;
• Leve ao banho-maria e, sempre batendo, acrescente aos poucos a manteiga em cubinhos, até que forme um molho consistente;
• Retire do fogo e acrescente o restante de estragão e também algumas gotas de limão.

Pronto, agora é só servir. Além de filet, pode ir com salmão e frango.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Alunos da periferia de Paris transformam Champs-Elysées em foco de estudo



O jornalista correspondente Fernando Eichenberg, de O Globo, publicou hoje uma excelente matéria no Globo Online sobre estudantes de sociologia franceses para os quais o verdadeiro ‘gueto francês’ não estaria nos subúrbios pobres e sim nos bairros ricos. Segue a matéria:
"Menos de trinta minutos e uma dezena de estações da linha 13 do metrô parisiense separam a cidade de Saint-Denis, subúrbio popular no norte da capital, do luxuoso entorno da célebre avenida de Champs Elysées. Durante três anos, entre 2011 e 2013, o professor de Sociologia Nicolas Jounin, da Universidade Paris 8-Saint-Denis, levou uma centena de seus alunos para um estudo de campo nos arredores do chamado “Triângulo de ouro”, zona delimitada pelos Champs-Elysées e as avenidas Montaigne e George V. A ideia do projeto era iniciar os estudantes de primeiro ano de faculdade na metodologia da investigação sociológica, neste caso invertendo a recorrente escolha da periferia pobre como objeto de pesquisa. A experiência virou livro, “Voyage de classes” (“Viagem de classes”, ed. La Découverte) — já na quarta tiragem da 1ª edição —, reverberou na mídia e suscitou debates nestes tempos em que o premier Manuel Valls denunciou a existência de um “apartheid territorial, social e étnico” em uma França formada por “guetos”. Para estudantes de Saint-Denis, por uma definição sociológica, o verdadeiro gueto francês não estaria localizado nos subúrbios pobres, mas nos bairros ricos de Paris.

Jounin defende sua iniciativa no contexto de um aumento das desigualdades sociais e econômicas nos últimos 40 anos no país, provocador de uma “segregação espacial” de populações mais pobres em cidades como Saint-Denis, e da concentração de camadas mais favorecidas em bairros como Champs-Elysées, correspondente ao 8º distrito de Paris.

— Essas desigualdades e essa segregação se traduzem por um modo de vida específico dos frequentadores e, sobretudo, dos habitantes destes bairros burgueses. E a densidade de sua sociabilidade, pelas escolas, clubes e rituais comuns, é o que produz uma consciência de classe provavelmente mais aguda do que em outras classes sociais — sustenta.

‘MAIS GUETO DO QUE SAINT-DENIS’

Números e estatísticas ilustram o abismo entre dois mundos nem tão distantes no mapa. A média do salário anual no “Triângulo de ouro” é de € 82 mil, contra € 16 mil em Saint-Denis e € 23 mil no país. A renda na área de Champs-Elysées depende menos do salário: 20% provêm de rendas de propriedade, contra 7% na escala do país e 2% em Saint-Denis.

Jordan Mongongnon, de 23 anos, que mora com os pais numa habitação popular de Bessancourt, ao norte de Saint-Denis, participou do primeiro grupo da pesquisa.

— O 8° distrito se constitui muito mais como um gueto do que Saint-Denis — opina ele. — Saint-Denis está mais próxima da realidade geral da França do que o 8° distrito. Isto, de algum modo, nos leva a tomar uma certa consciência de classe, mesmo que hoje não seja algo tão marcado como no passado. É por meio desta confrontação brutal que percebemos as desigualdades.

Em seu trabalho universitário, os alunos observaram e fizeram enquetes em butiques de luxo, hotéis cinco estrelas, bares e cafés, e interrogaram moradores. Num primeiro contato com a prefeitura do bairro, Jounin foi alertado de que seus alunos poderiam ser “recebidos a tiros” pelos habitantes locais se batessem às portas para propor questionários e pesquisas. Em suas tentativas de observação como clientes, os estudantes na maioria das vezes não obtiveram sucesso, segundo eles, por serem tratados de forma diferenciada, seja pelo desprezo de vendedores ou garçons ou pela vigilância de segurança.

— Rapidamente éramos catalogados como clientes ilegítimos. Por um lado, há uma racionalidade nisso, pois identificavam que não iríamos comprar — admite Jordan. — Mas há um tipo de tratamento constante de fazer você se dar conta quem é e de onde vem. A lógica implícita por trás desta interação é deixar claro que você não é bem-vindo. A Champs-Elyseés e seu comércio querem se manter como um lugar para privilegiados, e temem que algo possa afugentar seus clientes prioritários.

Miguel Cerejo, 26 anos, filho de um operário e de uma zeladora de prédio, mora com os pais no 17° distrito. Para ele, que integrou o último grupo do estudo, a experiência deixou flagrante a falta de diversidade social no “Triângulo de ouro”:

— A burguesia rica é hoje na França, do meu ponto de vista, a única classe social consciente de sê-lo, e que defende com afinco seus interesses. É um grupo socialmente fechado, que se reproduz socialmente, e busca assim preservar seu poder.

Para ele, uma das surpresas reveladas pela pesquisa foi a presença do “sexismo” no bairro rico.

— Há diversos círculos e clubes privados masculinos. Alguns aceitam mulheres, mas elas não têm direito a voto. A mídia em geral sempre aponta o sexismo nas classes populares, mas nos damos conta de que na alta burguesia isto também ocorre. Não esperava, foi algo que me surpreendeu — confessa.

‘MINORIA DESCONECTADA’

As anotações dos alunos abordam uma variedade de aspectos: alguns assinalaram mesmo a presença de pombos mais saudáveis em Champs-Elysées, e outros, a ausência de toaletes públicos (apenas 12, ou três por km² e seis para cada 100 mil habitantes), o que seria uma maneira de afastar os mais pobres, sem dinheiro para consumir num café e utilizar o banheiro. Também foi notada a diferença de tratamento de mulheres portando o véu: em Saint-Denis, o véu islâmico simboliza e cristaliza um conflito entre funcionários do Estado, nas escolas públicas, e parte da população; já na avenida Montaigne, endereço de lojas de prestígio, mulheres com véu da Arábia Saudita ou do Qatar são recebidas como clientes afortunadas e especiais, anotaram os alunos.

O 8° distrito conta com menos de 2% de habitações populares em sua área, índice que sobe para 40% em Saint-Denis e 15% na média do país. A prefeitura prefere infringir a lei e pagar multas, e justificou sua atitude ao professor argumentando de que nada adiantam habitações populares se o comércio ao redor é extremamente caro: há confeitarias de luxo Hédiard, mas não supermercados.

Jordan diz que a explicação municipal “se sustenta”, mas ressalta:

— Se franceses não podem se instalar e viver em um bairro francês, é porque algo está errado. É esta minoria que deve compreender que está desconectada, e isto é uma forma de eles manterem seus privilégios.

Já Abigail Tiecoura, 24, fez parte do segundo ano da prática sociológica no “Triângulo de ouro”:

— Esta experiência me ensinou que é preciso nos conhecermos melhor, compreender ainda mais as questões que levam à formação de grupos, para permitir novas possibilidades de igualdade, pois acredito que são possíveis."