sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Niki de Saint Phalle redescoberta



O jornalista correspondente Fernando Eichenberg, de O Globo, publicou hoje, uma boa matéria sobre a redescoberta da artista francesa Niki de Saint Phalle sua exposição que conta com mais de 200 de seus trabalhos e documentos de arquivos. Abaixo reproduzo e recomendo a leitura, segue o texto:

"Catherine Marie-Agnès Fal de Saint Phalle veio ao mundo em 1930, no subúrbio chique de Neuilly-Sur-Seine, na França, no berço de uma família franco-americana aristocrata e de banqueiros em falência pela crise financeira de 1929. Na contramão do destino que lhe fora programado — o papel de esposa submissa aos códigos sociais —, tornou-se Niki de Saint Phalle, artista autodidata politicamente engajada, militante feminista e autora irreverente de uma vasta e original obra, geralmente desconhecida do público em sua totalidade. A mostra inaugurada nesta semana pelo Grand Palais na capital francesa, em cartaz até fevereiro de 2015, promove ao mesmo tempo a redescoberta da artista e do personagem, com a exibição de mais de 200 de seus trabalhos e documentos de arquivos em um espaço de 2 mil m².

Galeria
Veja imagens da exposição 'Niki de Saint Phalle'

O nome Niki de Saint Phalle evoca comumente as célebres “Nanás”, sua série de bonecas gigantes, alegres e coloridas, parida nos anos 1960; a Fonte Stravinsky, incontornável conjunto de 16 esculturas instalado ao lado do Centro Pompidou, em Paris — criado com a colaboração do escultor suíço Jean Tinguely (1925-1991), seu parceiro artístico e também amante —; ou o seu Jardim dos Tarôs, concebido entre 1979 e 1993, na Toscana. Mas sua arte vai muito além disso, ressalta Camille Morineau, curadora da exposição e também autora de um breve ensaio sobre Saint Phalle:

— É uma artista violenta, rebelde, política, de uma radicalidade incrível, que se interessou muito pelas questões de seu tempo. Foi uma das primeiras artistas feministas, e tinha um discurso provocador, por vezes propositalmente caricatural e com humor para enfrentar o mundo machista da época. Além das conhecidas “Nanás”, existem suas séries “Noivas”, “Mães devoradoras” ou a poética “Partos”, por exemplo.

Pintora, escultora, desenhista, gravurista, cineasta experimental, a bela Niki de Saint Phalle posou como modelo de capa de revistas como “Vogue”, “Elle” ou “Harper’s Bazaar”; inventou performances; participou das origens da pop art; lutou contra a discriminação racial e pelos direitos cívicos americanos; se engajou no combate à Aids — fez inclusive um livro infantil educativo sobre o tema —; e foi uma das pioneiras no uso da mídia para divulgar suas ideias e sua arte.

— Foi uma mulher corajosa, vinha de um meio burguês e aristocrata, rebelou-se contra a herança familiar e entrou na vida boêmia de um grupo de artistas do bairro parisiense de Montparnasse, sem dinheiro no início e numa vida difícil, na qual produziu uma arte subversiva para a época — sustenta Morineau.

Casada em Nova York em 1949, aos 19 anos, com o norte-americano Harry Mathews, três anos depois ela deixou os Estados Unidos da caça às bruxas do comunismo em pleno Macartismo para se instalar na França. Em 1953, em meio a uma crise depressiva, foi internada por seis semanas no hospital psiquiátrico de Nice. Diagnosticada pelos médicos como esquizofrênica, sofreu um tratamento de choques elétricos. Neste período, fez suas primeiras pinturas e também colagens com elementos buscados no jardim do hospital.

— Ela teve uma grave depressão nervosa. Foi erroneamente diagnosticada como esquizofrênica. E é no hospital que decide se tornar uma artista. A partir deste momento , ela se “cura”. É via seu trabalho criativo que veiculará as suas fortes emoções, a paixão, a violência, em toda sua amplitude — diz a curadora.

CALAFRIOS POR GAUDÍ

“Pintar acalmava o caos que agitava minha alma. Era uma forma de domesticar os dragões que sempre surgiram em meu trabalho. Sem isso, prefiro nem pensar no que poderia ter me acontecido”, escreveu a artista em “Harry and me — The family years”, uma de suas obras autobiográficas. Em uma temporada na Espanha, ficou impressionada diante de obras de Goya, Brueghel, El Greco e Jérôme Bosch no Museu do Prado, em Madri. Mas seu grande choque artístico ocorreu na visita ao parque Güell, projetado por Antoni Gaudí (1852-1926), em Barcelona. “No parque Güell, senti calafrios, raios. Tremia por tudo. Naquele dia, meu destino estava claro. Sabia que um dia também faria, do meu jeito, um jardim de felicidade”, disse numa entrevista.

Sua reputação artística debutou, no entanto, com sua série “Tiros”. Em 12 de fevereiro de 1961, em seu ateliê parisiense no Impasse Ronsin, protagonizou a primeira de suas numerosas sessões com sua carabina de cano longo calibre 22. Disparava contra objetos cuidadosamente escolhidos, grudados em uma tela e cobertos por uma camada de gesso que tinha em seu interior sacos de plástico repletos de tinta. O impacto dos projéteis liberava as cores e criava a obra instantânea. Após assistir à performance de estreia, o crítico de arte Pierre Restany convidou Saint Phalle a ser a única mulher a integrar o grupo dos Novos Realistas, formado por artistas como Yves Klein, Arman, César e Martial Raysse, além do próprio Tinguely, e que se autoproclamava herdeiro de Marcel Duchamp, do movimento dadaísta e do surrealismo (mais tarde, ela se tornaria amiga de Jasper Johns e Robert Rauschenberg, dois nomes da pop art americana).

“Imaginava a pintura se pondo a sangrar. Ferida, da forma como as pessoas podiam ser feridas. Para mim, a pintura se tornava uma pessoa, com sentimentos e sensações”, escreveu em uma de suas cartas imaginárias. Para Camille Morineau, a série de tiros alcança um significado social e político:

— Ela atira contra Kruschev, Kennedy, De Gaulle (na obra “King Kong”, de 1963, referência aos líderes implicados nos conflitos mundiais e um alerta contra a ameaça nuclear), contra a representação do patriarcado e a religião — assinala.

“NOVA SOCIEDADE MATRIARCAL”


Em sua denúncia do fracasso do comunismo e do capitalismo, Saint Phalle reclamava por uma “nova sociedade matriarcal”, e após os tiros se dedicou a esculpir “grandes criaturas à glória da mulher”. Em 1966, apresentou em Estocolmo, na Suécia, sua monumental e efêmera naná “Hon”, uma “deusa pagã da fertilidade” de 28 metros de comprimento, seis metros de altura e nove metros de largura, pesando seis toneladas. A escultura abrigava no seio direito um planetário, e no outro, um milk-bar equipado com um triturador de garrafas de Coca-Cola; no braço esquerdo foi instalado um cinema que projetava o primeiro filme de Greta Garbo; em uma das pernas, as crianças podiam brincar de tobogã, e a vagina foi desenhada como a porta de entrada. Em três meses, cerca de cem mil visitantes formaram filas para penetrar no que foi chamado de “a maior puta do mundo”.

A denúncia da opressão e dominação masculina também se introduziu em sua arte por uma trágica experiência pessoal: aos 11 anos, foi abusada sexualmente pelo pai. “O verão das serpentes foi aquele em que meu pai, este banqueiro, este aristocrata, colocou seu sexo na minha boca”, escreveu em 1994, aos 63 anos, em “Meu segredo”, livro em que revela publicamente a agressão. Antes, em 1972, havia dirigido e protagonizado o filme “Daddy”, no qual dispara contra a imagem do pai na obra “A morte do patricarca”.

— Ela não quis contar isto antes porque temia que sua arte fosse vista através desse episódio, o que não seria justo — argumenta Morineau. — É verdade que viveu essa violência pessoalmente, mas é um tema que de toda maneira iria abordar em seu trabalho. Tive oportunidade de ver o reverso da tela em questão, e pode-se perceber onde ela mirou os tiros: nas partes genitais e no coração.

Niki de Saint Phalle morreu em 21 de maio de 2002, pelo agravamento de sua insuficiência respiratória crônica. Em sua autobiografia, “Traces” (1999), anotou: “Decidi desde cedo que seria uma heroína. Quem seria? George Sand? Joana d’Arc? Um Napoleão de saias? Que importa! O importante é que foi difícil, enorme e excitante!”.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

De Tarsila a Santos Dumont: os brasileiros em Paris

 

Maurício Torres Assumpção mudou-se para Paris em 2008 e seu primeiro endereço foi perto da sede do Partido Comunista Francês, projetado por Oscar Niemeyer. Foi lá que ele teve a ideia de pesquisar personagens e curiosidades brasileiras na cidade, assunto de “A história do Brasil nas ruas de Paris", pela Editora Casa da Palavra.

O livro lembra, por exemplo, das feijoadas de Tarsila do Amaral em seu apartamento perto do Rio Sena, e do dia em que Santos Dumont aterrissou o seu dirigível em plena Champs-Élysées, onde morou. 

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Pequenos ritos em Paris, por Zeca Camargo




Reproduzo a seguir um artigo publicado na Folha de São paulo no dia 11 de setembro passado por Zeca Camargo, 51 anos, jornalista, apresentador do 'Vídeo Show', da TV Globo, e autor de livros como 'A Fantástica Volta ao Mundo' (2004) e '1.000 Lugares Fantásticos no Brasil' (2006).

Brigitte não sabe que é minha musa. Desconfio que ela nem sabe da minha existência. A não ser por uma garrafa de Calvados que meu irmão certa vez me trouxe, autografada por ela, duvido que Brigitte tenha perdido sequer um minuto pensando na minha pessoa. Aliás, não tenho certeza nem se seu nome é Brigitte (mesmo que tenha o escrito naquela dedicatória), mas é assim que eu a chamo desde que, numa madrugada de um frio sádico, eu pedi a ela que me servisse o último copo do dia. De Calvados, claro.

Simplificando, Calvados é um "conhaque de maçãs", produzido na região da Baixa Normandia. E é forte. O nocaute já vem no olfato –o nariz sempre o recebe antes da boca. Brigitte serve a todos com um velado entusiasmo –sua figura, uma espécie de negativo da Capitu de "Dom Casmurro": tudo nela lembra ressaca, menos os olhos atentos. Se vou a Paris, passo pelo bairro do Marais para vê-la no La Belle Hortense –um bar graciosamente compartido com uma livraria. E tomo ao menos uma dose.

Esse pequeno ritual soma-se a outros tantos que eu gosto de cumprir na cidade. Também tenho "mania" de ir à Sainte-Chapelle e fazer uma oração qualquer –sempre me lembrando da peça que meu tio que me levou lá pela primeira vez pregou: depois de mostrar o ligeiramente convencional piso térreo, ele perguntou sem entusiasmo se eu queria ver o andar de cima; subi sem vontade até que fui surpreendido pelos vitrais mais incríveis de uma cidade que não tem escassez deles.

Gosto ainda de revisitar a primeira Fnac que conheci, em Les Halles, com seus infindáveis corredores de livros e discos –que naqueles idos dos anos 80, ainda eram de vinil. Lembro-me especialmente de um diálogo inusitado com alguém que conheci na sessão de música brasileira, que me perguntava se eu gostava de Paris; eu, com meu francês ainda tosco, tentava explicar que sim, mas que minha paixão mesmo era, na época, Londres –numa típica confusão de tradução entre os verbos "amar" e "gostar".

Se passo pelo Louvre, faço um desvio rápido até a Rue du Pelicán –endereço do albergue que fiquei nos meus tempos "de mochila". E, quando posso, vou ainda à torre –aquela torre!– que uma noite fui revisitar por impulso, pedindo ao motorista do táxi (num francês já mais polido), que desviasse do caminho do hotel e levasse aquele apaixonado casal (do qual eu fazia parte) para ver as luzes cintilando naquela estrutura de ferro.

Afinal, a graça maior de Paris é poder apresentá-la a alguém –uma lição que aprendi na minha estreia na cidade. Foi com minha tia Beatriz, mulher do tio (Mario) que me mostrou a Sainte-Chapelle. Antes dos vitrais, antes da torre, antes de tudo, no primeiro dia que cheguei –aos 16 anos–, ela me levou para passear de carro por aquelas ruas deslumbrantes. Era já noite e eu não sabia para onde olhava! Percebendo meu encantamento, tia Beatriz perguntou casualmente se eu estava gostando. Eu mal sabia o que responder. Ela então disse: "Eu sei como é, eu tenho inveja de quem conhece Paris pela primeira vez".

Parece um comentário arrogante, mas foi das coisas mais generosas –e sábias– que ouvi dessa minha tia que é até hoje muito querida. Ela não falou num tom esnobe, mas com uma genuína nota de saudade, dos primeiros momentos que viveu por lá ainda moça, e podia reviver então na excitação do meu olhar. E é isso que eu procuro também quando viajo ou encontro com alguém que está sendo apresentado a um canto da cidade –ou a ela toda!

Mas já que essa sensação eu não posso mesmo reproduzir, que a experiência de se apaixonar por Paris possa sempre ser revisitada no Calvados de Brigitte. Não vejo a hora de poder tomar o próximo copo.

Paris vai retirar os 'cadeados do amor'



Com cerca de 700.000 cadeados - que pesam cerca de 500kg por painel, ou seja quatro vezes mais que o limite de segurança - em suas pontes, a Prefeitura de Paris encontrou uma maneira de substituir essas grades.

Passará a utilizar como guarda-corpo painéis transparentes. A experiência começará na semana que vem na Pont des Arts, a primeira ponte a sofrer com essa estranha mania turística.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Ducasse decreta: menos carnes vermelhas em seus menus

O chef Alain Ducasse, que reabre em setembro seu restaurante no Plaza Athénée

Um dos grandes nomes da gastronomia francesa, o Chef Alain Ducasse reabriu, segunda-feira passada (8), seu restaurante no hotel Plaza Athénée, em Paris – o hotel ficou fechado para passar por uma grande reforma e tem sido reaberto gradualmente desde agosto.

Além da reforma física, o Alain Ducasse au Plaza Athénée, conhecido pelo luxo (que será mantido), terá uma pequena revolução no cardápio.

Ducasse, cozinheiro que mais tem estrelas "Michelin" no planeta – sendo três delas para o restaurante do Plaza Athénée –, priorizou ingredientes orgânicos em seu novo menu.

Nessa toada, que valoriza o que ele chamou de "naturalité", a carne vermelha perdeu espaço considerável. Ainda haverá pratos com ela, mas os preparos básicos e as estrelas do cardápio, agora, serão "peixes, cereais e vegetais, apresentados de forma excepcional", nas palavras do Chef à agência France Presse.

"É uma nova expressão da alta cozinha francesa contemporânea", disse. "O planeta tem recursos cada vez mais raros, então temos que consumi-los de forma mais ética e justa".

O Chef também se disse em uma cruzada obsessiva para "eliminar o açúcar".

Segundo Ducasse, quanto mais "humildes" os ingredientes, mais complexo é o trabalho com eles. Citando uma sardinha que estará no menu, ele afirmou considerar o prato "15% sardinha e 85% trabalho".

Entre os destaques do novo menu estão arroz negro com mariscos, lula e polvo, e peixe com trigo no tagine.

Os preços, vale dizer, não passaram por nenhuma revolução: o menu deve custar € 380, sem bebidas.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Air France não voa, mas expõe no Grand Palais

Apesar da greve de pilotos estar afetando mais de 70% dos voos diários da empresa aérea francesa com prejuízos diários na ordem de 15 milhões de euros, a companhia lançou uma exposição magnífica no Grand Palais sob o tema "Air France, France is in the air".

Esta exposição, que já esteve em cartaz em Shangai e New York, foi concebida para compartilhar com seus clientes o novo conceito de viagem da empresa que comemora seus 80 anos.

Em cartaz até o dia 21, esta é uma oportunidade única para descobrir a arte de viajar de forma bem poética pelo universo Air France: suas novas classes e cabines e seu passado, contado através de objetos diversos, como uniformes e bolsas que têm viajado o mundo pelos últimos oitenta anos.
















Grand Palais
Fechado as terças-feiras
3, Avenue du Général-Eisenhower
8ème arrondissement
Telefone: 01 44 13 17 17
www.grandpalais.fr

domingo, 14 de setembro de 2014

Eataly chega a Paris

Empório de queijos na unidade do Eataly de Nova York; a rede vai abrir mais uma unidade em Paris

A rede italiana de empórios gastronômicos e restaurantes Eataly, fundada pelo empresário Oscar Farinetti, deve abrir um ponto de venda no Marais, perto da grande loja de departamento BHV e do Hôtel de Ville.

"Os trabalhos para a chegada do Eataly em Paris avançam. A cadeia deve abrir uma grande loja de 6.000 metros quadrados", destacou o jornal francês "Le Figaro".

A empresa italiana há vários meses negocia com a Galeries Lafayette, o grupo francês especializado em grandes distribuições, cuja sede histórica está localizada em Paris.

"Se o Eataly assinar o acordo com Galeries Lafayette o grupo italiano terá sua sede no Marais em Paris. A Galeries Lafayette dispõe de locais comerciais próximos a grande loja Bhv, onde os trabalhos para hospedar Eataly já começaram", destacou o jornal.